Imagine a Terra sem uma única árvore. Nem floresta, nem mata, nem um arbusto. Só pedra nua, poças rasas e um tapete fino de musgo agarrado à rocha úmida. Um planeta que parece outro planeta.
Agora imagine que, nos oceanos desse mundo, já havia tubarões nadando.
1. Tubarões vieram antes das árvores
As evidências mais antigas de tubarões têm cerca de 450 milhões de anos. As primeiras árvores de verdade, como a Wattieza, surgiram por volta de 385 milhões de anos atrás. São uns 65 milhões de anos de vantagem para o tubarão.
Vale a precisão, porque ela é interessante por si só: a evidência de 450 milhões de anos são escamas, dentículos microscópicos encontrados em sedimentos do Ordoviciano. Existe debate legítimo entre paleontólogos sobre se pertencem a tubarões propriamente ditos ou a parentes próximos da mesma linhagem de peixes cartilaginosos. O fóssil de um tubarão completo mais antigo, o Cladoselache, tem cerca de 380 milhões de anos.
Mas repare: mesmo pela contagem mais conservadora, o resultado não muda. Tubarões e árvores são praticamente contemporâneos no pior caso, e os tubarões vêm bem antes no caso mais aceito. O Museu de História Natural de Londres trabalha com a linha dos 450 milhões.
De qualquer ângulo, a frase se sustenta: quando a primeira árvore brotou, o tubarão já era um animal antigo.
2. Eles atravessaram as cinco extinções em massa
A história da vida na Terra tem cinco catástrofes tão brutais que apagaram a maior parte das espécies do planeta de uma vez. A do fim do Permiano, a pior de todas, eliminou algo perto de 96% das espécies marinhas. A do fim do Cretáceo é a famosa, a do asteroide que acabou com os dinossauros não-avianos.
A linhagem dos tubarões passou por todas as cinco.
É preciso ser honesto sobre o que isso significa. Não é que os tubarões sejam invulneráveis: em cada uma dessas extinções, muitas espécies de tubarão morreram, às vezes a esmagadora maioria delas. O que sobreviveu foi o grupo, o desenho, a linhagem. Enquanto o mundo pegava fogo, congelava, acidificava e se envenenava, sempre sobrava algum tubarão em algum lugar.
É a diferença entre o indivíduo e a ideia. A ideia de tubarão se mostrou boa demais para morrer.
3. Existe um tubarão vivo hoje que nasceu antes de Shakespeare
E aqui a história sai da escala geológica e entra numa escala que dá arrepio, porque é humana.
O tubarão-da-Groenlândia é um bicho lento, cego de tanta parasita no olho, cinzento, que vive nas águas geladas e escuras do Ártico. Em 2016, cientistas dataram um exemplar por radiocarbono no cristalino do olho e chegaram a uma idade estimada de cerca de 392 anos, com margem que ia de 272 a 512.
Isso faz dele o vertebrado mais longevo conhecido do planeta, com folga. O segundo colocado, a baleia-da-groenlândia, chega a uns 211 anos. Não é uma disputa apertada.
Pare um segundo no que isso implica. Um tubarão-da-Groenlândia que esteja nadando no Ártico neste exato momento pode ter nascido antes de Shakespeare terminar Hamlet. Ele já estava vivo quando não havia Estados Unidos, quando a Revolução Francesa não tinha acontecido, quando ninguém sabia que existiam micróbios.
E, por incrível que pareça, ele passou boa parte disso sendo criança: a espécie só atinge a maturidade sexual por volta dos 150 anos.
A vantagem de não ter pressa
Existe uma tentação de olhar para o tubarão como um fóssil vivo, um animal que "parou no tempo". É o contrário. Ele não parou: ele acertou cedo.
O corpo do tubarão resolveu tão bem o problema de ser um predador no oceano que a evolução, em 450 milhões de anos, encontrou pouca coisa para melhorar. Nós, com nossos poucos milhões de anos de linhagem e uns dois séculos de indústria pesada, conseguimos colocar em risco um animal que sobreviveu a cinco apocalipses.
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