Em 2030, a Copa do Mundo vai fazer uma coisa estranha: começar num país e terminar em outro continente. Os primeiros jogos serão no Uruguai, na Argentina e no Paraguai, e depois o torneio inteiro atravessa o Atlântico para a Espanha, Portugal e Marrocos. A explicação oficial é o centenário. A explicação real é uma dívida de cem anos.
1. Em 1930, a Europa simplesmente não quis ir
A primeira Copa do Mundo foi entregue ao Uruguai por bons motivos: o país era bicampeão olímpico de futebol e comemorava cem anos de independência. Construiu um estádio novo para a festa e se ofereceu para pagar a viagem e a hospedagem de todos os convidados.
A Europa deu de ombros. Chegar a Montevidéu significava mais de duas semanas dentro de um navio, ida e volta, no auge da Grande Depressão. Jogadores eram, quase todos, trabalhadores com emprego fixo, e ninguém tinha certeza de que a vaga estaria lá quando voltassem. Um a um, os países europeus declinaram.
O torneio começou com treze seleções. Sete da América do Sul, duas da América do Norte e apenas quatro europeias: França, Bélgica, Romênia e Iugoslávia. A primeira Copa do Mundo da história quase não teve mundo.
2. A Romênia só foi por causa de um rei irritado
O caso romeno é o mais improvável de todos. Carol II tinha acabado de tomar o trono, e conseguiu inscrever o país na Copa batendo o prazo da FIFA por três dias.
Só que havia um obstáculo prático. Boa parte dos melhores jogadores romenos trabalhava numa companhia petrolífera de capital inglês, que avisou: quem embarcasse para o Uruguai estaria demitido na volta. Dois meses fora não cabiam em emprego nenhum.
O rei então ligou para a empresa. A conversa foi curta e o recado foi direto: ou os jogadores recebiam licença remunerada, ou a companhia seria fechada. Os jogadores receberam licença remunerada. A Romênia jogou a Copa.
3. O estádio da Copa não ficou pronto para a Copa
O Estádio Centenário era o orgulho do projeto, erguido especialmente para o torneio e batizado em homenagem aos cem anos da independência uruguaia. O problema é que o inverno de 1930 foi particularmente chuvoso, a obra atrasou, e quando a bola rolou o estádio ainda era um canteiro.
A Copa do Mundo começou, portanto, em campos de clube. Os cinco primeiros dias foram disputados no Pocitos e no Gran Parque Central, os estádios do Peñarol e do Nacional, com capacidade de uma fração do que se esperava. O Centenário só abriu as portas com o torneio já em andamento.
A vingança que durou décadas
O Uruguai venceu aquela Copa. E guardou mágoa.
Quatro anos depois, quando a Itália sediou a segunda edição, o campeão do mundo se recusou a ir defender o título, em protesto contra os europeus que haviam desprezado o convite de 1930. Até hoje, o Uruguai é o único campeão mundial que nunca foi defender a taça que tinha ganhado.
É por isso que a decisão de 2030 tem um peso que vai muito além da logística. Levar a abertura de volta a Montevidéu, cem anos depois, no estádio que não ficou pronto a tempo, é a FIFA finalmente reconhecendo quem bancou a festa quando ninguém queria comparecer.
A bagunça de seis países e três continentes é real, e rende reclamação justificada. Mas o gesto, esse, estava atrasado um século.
- Tags: #copadomundo #futebol #uruguai #historia #curiosidades
- Música: ES_Travelers - Chronos (Epidemic Sound)
Fontes