Pense num jogo de futebol. O árbitro puxa o cartão amarelo. O técnico faz uma substituição. A bola preta e branca rola no gramado. Nada disso parece novidade, parece a própria definição do esporte.
Só que as três coisas nasceram na mesma Copa do Mundo. E não faz tanto tempo assim: 1970, no México.
1. Os cartões nasceram num semáforo de Londres
Antes de 1970, o árbitro advertia e expulsava jogadores só falando. O problema aparecia quando árbitro e jogador não compartilhavam idioma nenhum, o que numa Copa do Mundo é a regra e não a exceção. O sujeito era advertido, não entendia, seguia jogando. Ou era expulso, não entendia, e continuava em campo.
A situação chegou ao limite em episódios como a Batalha de Santiago, na Copa de 1962, uma partida entre Chile e Itália tão violenta que virou sinônimo de descontrole. E se repetiu em 1966, com jogadores que simplesmente não sabiam que haviam sido punidos.
O árbitro inglês Ken Aston, que vivia esse problema na pele, encontrou a solução no lugar mais banal possível. Ele dirigia pela Kensington High Street quando o sinal fechou. E pensou: amarelo, vai com calma. Vermelho, pare, você está fora.
Era isso. Uma linguagem sem palavras, que qualquer pessoa do planeta já entendia antes mesmo de chegar ao estádio. Os cartões estrearam na Copa de 1970 e nunca mais saíram do futebol, e de quase nenhum outro esporte.
2. Não existia substituição, ponto
Este é o que costuma causar mais espanto, porque a substituição parece uma engrenagem básica do jogo. Não era.
Até a Copa de 1970, um time que entrava em campo com onze jogadores terminava a partida com os onze que sobrassem. Se alguém se machucava de verdade, a equipe tinha duas opções: jogar com um a menos até o apito final, ou manter em campo um jogador mancando, incapaz de correr, ocupando uma vaga.
Isso mudava o esporte inteiro. Uma entrada violenta no começo do jogo não custava só um jogador, custava a partida. Não havia banco de reservas no sentido que conhecemos, havia um grupo de atletas assistindo, sem chance nenhuma de entrar.
O México 1970 foi a primeira Copa a permitir substituições, duas por time. A primeira da história aconteceu logo no jogo de abertura, em 31 de maio de 1970: o soviético Anatoly Puzach entrou no intervalo da partida contra o México.
3. A bola preta e branca foi feita para uma TV que ia sumir
Feche os olhos e desenhe mentalmente uma bola de futebol. É quase certo que você imaginou gomos pretos e brancos: doze pentágonos pretos e vinte hexágonos brancos. É o desenho do emoji, do brinquedo, do ícone, do desenho animado.
Esse padrão não tem nada de ancestral. Ele foi adotado na bola oficial da Copa de 1970 por um motivo puramente técnico: fazer a bola aparecer na televisão em preto e branco. Uma bola de couro marrom, uniforme, sumia no cinza do gramado nas telas da época. O contraste dos gomos escuros contra os claros resolvia o problema, e o telespectador finalmente conseguia acompanhar onde a bola estava.
O nome da bola dizia exatamente isso, e vinha de "estrela da televisão".
A ironia perfeita
E aqui a história fecha com uma piada que ninguém planejou.
A Copa de 1970 foi a primeira transmitida a cores, e a primeira levada por satélite ao mundo inteiro. Ou seja: a bola desenhada para salvar a televisão em preto e branco estreou justamente no torneio que começou a tornar a televisão em preto e branco obsoleta.
A tecnologia que motivou o desenho morreu. O desenho ficou. Mais de meio século depois, quando você pensa em futebol, a imagem que aparece na sua cabeça é a solução de um problema que não existe mais.
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Fontes